terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Única

És a única que sabe.
Ela é que não sabe que há segredos que eu preferia não saber.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Pecados


A moça que está envolvida no projeto que, hoje, trazia em visita ao escritório os parceiros do dito, encontrava-se naquele momento reunida com outra colega. Coisa interna, apenas.  Cabia-me a mim acompanhar a visita ao espaço que se pretendia para o evento de modo a permitir uma avaliação da sala, do equipamento disponível, das datas possíveis e de outros detalhes.

E a moça? pergunta-me a líder do grupo de visitantes, pessoa de cargo elevado e de assinalável gabarito no que a simplicidade diz respeito, capaz de acompanhar os restantes membros, soldados rasos para o caso em questão, numa mera visita de inspeção logística.

Fui então pedir-lhe uns instantes, que seriam até do seu interesse, pois que a moça, já o sei por correios eletrónicos antes trocados, não vai estar presente na próxima reunião do grupo de trabalho. Só que a moça, achou-se. Que agora não podia, disse, enquanto abanava o dedo reforçando a negativa. Voltei ao grupo das visitas e só me restou explicar à pessoa de cargo elevado, que uma importantíssima videoconferência em curso impedia a moça de se apresentar naquele momento.

A soberba da moça, a minha mentira e ódio com que lhe fiquei foram pecados a mais para uma só tarde de tempo quaresmal.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Passeio de domingo (396)


Apesar da edição tardia, o passeio foi de manhã. No Parque Ambiental de Vilamoura, com cegonhas e não só.












sábado, 17 de fevereiro de 2018

Cornélia


A secção da charcutaria estava hoje com grande demora. A quase vinte senhas de distância, desloquei-me para a secção do talho, onde, muito satisfeita, tirei a senha com número a apenas a dois de distância do atendimento. Entretanto, o homem que fazia o pedido era com certeza dono de uma grande arca congeladora. Isso pensava eu enquanto via o rapaz do talho preparar-lhe meia dúzia de sacos, cada um com dois frangos cortados em metades. E via, de seguida, arranjar dois ou três sacos com duas tiras de entrecosto, em cada um. E depois também cortou dois ou três quilos de costeletas de porco. O homem ainda falou nas salsichas, mas como não havia mais do que as que estavam expostas – talvez um quilo – parecendo-lhe pouco, desistiu. No écran avisador, a secção da charcutaria continuava com demora e isso facilitava a espera no talho.  Aviado o homem da arca congeladora e com mais um talhante em funções, as duas senhas antes da minha safaram-se dali num ápice. Eu também. Na charcutaria, as senhas continuavam lentas. Ocupei-me com as cenouras, o pimento, as papaias, as peras e as bananas. O pão ajudou também. Ainda assim, sobrava espera. À falta de mais artigos necessários para colocar no carrinho, entretive-me observando a rapariga das pestanas postiças. Das muitas coisas postiças que agora se usam, verifico que há uma forte tendência para pestanas postiças. Algumas, como as da rapariga que esperava pela vez na charcutaria, são exageradamente postiças. São enormes, muito enroladas, tal e qual as da vaca Cornélia. Entretanto chegou a minha vez, a empregada solitária fatiou-me o peito de peru e fui para a caixa enquanto a rapariga das pestanas postiças, que não é do tempo da vaca Cornélia, continuou na fila de espera, imune às minhas comparações.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Algarve





1
A luz mais pura
Sobre a terra seca

2
Um homem sobe o monte desenhando
A tarde transparente das aranhas

3
A luz mais que pura
Quebra a sua lança


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Cebolas


Ao fim da tarde, em passo apressado, dirijo-me para a entrada da grande superfície comercial de onde sai uma família de cinco. Todos carregam nas mãos algumas compras de supermercado. A mãe e dois dos filhos trazem um quilo de cebolas cada um. Sigo para a bilheteira do cinema. Três horas depois, estou de regresso a casa e ainda me questiono sobre que especialidade culinária leva assim tanta cebola.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Passeio de domingo (395)



Em tempo de Carnaval, fui ver o desfile das amendoeiras. Resolveram disfarçar-se de noivas.










quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Mandrágora

Há meses que ando a cumprir escrupulosamente o desejo de J.L. Borges e de Margarita Guerrero. Coloquei o Livro dos Seres Imaginários na pilha dos que residem na minha mesa de cabeceira e, de tempos a tempos, tal como manifesta o prólogo, curiosa que sou, frequento uma ou outra entrada, “como quem joga com as formas cambiantes reveladas pelo caleidoscópio”.

Uma ou outra vez, calha-me abrir a página dedicada à Mandrágora. Acredito que as há aqui bem perto, no campo por onde repetidamente passeio. Uma, pelo menos, vi. Um dia atrevo-me a tentar arrancá-la do chão, desafiando potenciais e terríveis calamidades. Ou então, não. Observá-la-ei, como sempre, temerei ou questionarei os seus poderes, os já descritos e os que ainda falta imaginar.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Pensar positivo

Depois de um dia que não foi nem bom nem mau, depois de um dia com muito trabalho, depois de um dia frio, depois de comprar pão, alheiras e queijo fresco, depois de fazer o jantar, depois de assistir às notícias Trump, enquanto já passavam as notícias Carvalho, enquanto eu lavava a loiça, aconteceu-me o momento positivo do dia. Assisti ao voo breve de uma pequena bola de sabão que se escapou da esponja e morreu, como deve morrer uma bola de sabão, desfazendo-se num salpico feliz sobre a bancada da cozinha.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Meteorologia


Nota: Este blog não se responsabiliza por eventuais alterações do tempo.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Passeio de domingo (393)


Aproveitei o sol da manhã para ver o mar, na praia dos Olhos de Água. Um clássico, que repito com frequência.








quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Pedido de casamento

O pai da rapariga era uma verdadeira fera e foi a medo que o rapaz formulou o pedido. Com o tom de maior respeito que pôde arranjar, disse-lhe que desejava pedir-lhe a mão da filha em casamento. Aquele que seria o seu futuro sogro perguntou-lhe se tinha absoluta certeza de que era isso que queria.  Ele, mais tranquilo ao ouvir o tom conciliador do homem, confirmou. Foi então que, pegando no cutelo que se encontrava sobre a bancada da cozinha, o pai da moça lhe satisfez o pedido.

Casamento

“Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe”
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.

Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic
In Obras Completas de Mário-Henrique Leiria: Ficção, E-primatur, 2017