quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Anemonia sulcata



Não posso dizer que não gosto do sítio que escolhi para viver, porque gosto. Ora estou debaixo de água, ora estou ligeiramente fora dela. Não há cá monotonia. Nestas quantas horas em que apanho sol também aproveito para ver uma quantidade de seres estranhos que se movem sobre dois tentáculos apenas. Muitos deles param junto a mim e alguns tocam-me. Não gosto do seu sabor e são demasiado grandes para uma refeição. Por falar nisso, já podia subir a maré, a ver se me chega aqui perto algum alimento de jeito.

Floripes

Conta-se que Floripes era uma moura encantada que vagueava de noite pelas ruas estreitas de Olhão. Toda vestida de branco, com longos cabelos louros, aparecia de madrugada aos pescadores que, por receio, não chegavam a falar com ela. Porém, em tempos, um desses pescadores ter-lhe-á perguntado quem era e porque aparecia assim. Ela contou que tinha sido encantada pelo pai, um mouro, quando este teve que fugir do Algarve. Disse também que para a desencantar alguém teria de seguir com ela num barco, que ela própria orientaria, levando duas velas acesas até chegar ao destino. Se chegasse ao local determinado com as velas acesas, ela perderia o encanto e a pessoa ganharia uma fortuna. Se não chegasse a esse local com as velas acesas, o barco afundaria, a pessoa morreria afogada e o encantamento manter-se-ia. O pescador não aceitou a tarefa e que se saiba nenhum outro quis correr o risco. Continua, por isso, encantada a moura Floripes.

A lenda da Floripes inspirou o filme.

Fonte:


Trouxe para aqui esta lenda do Algarve, para juntar às lendas que vários bloggers resolveram divulgar, convidando quem gosta destas histórias a publicar uma também. Deixo o link para a lista  das lendas já publicadas que a Afrodite criou e vai atualizando.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Selfie

Quando os amigos dela e os amigos dele virem a fotografia nas redes sociais é seguro que vão lá colocar muitos gostos, muitos corações, muitas emoções e que ficarão deslumbrados com a paisagem, o enquadramento, a luminosidade, o cenário… Que o cenário é magnífico, asseguro-vos eu. E ele e ela também. Belos e jovens. Olhei para eles quanto tiravam a selfie. A selfie não, as selfies, porque aquilo foi para cima de quinze minutos de poses e cliques. Nunca eu, nem – acredito - quem por acaso aqui me lê, imaginou o trabalho que dá tirar uma selfie à beira-mar. Ora atentem. Ele já se encontra com os pés na água enquanto ela vai descendo o areal, ajeitando o telemóvel no selfie stick. Com o equipamento pronto, ela sobe para as cavalitas dele. Potentes cavalitas, diga-se, pois que aguentaram a moça durante a toda a sessão fotográfica sem o mínimo desequilíbrio. Fora de água, dentro de água, de costas para o mar, de costas para o areal, olhando para leste, olhando para oeste, inclinando para um lado, inclinando para o outro, ela segurando os cabelos longos e louros, ele fazendo V com os dedos da mão direita. Bem podia eu desviar os olhos para qualquer outro motivo de interesse na praia que, no regresso, lá estavam eles, sempre encavalitados, a experimentar outra orientação dos corpos, uma agitação de braços, uma careta talvez. E eu a achar aquilo inacreditável. Estava perante os verdadeiros profissionais da selfie, uma arte que  nunca dominarei, para mal dos gostos, corações e emoções que jamais poderei granjear.

domingo, 17 de setembro de 2017

Passeio de domingo (375)


Mais uma vez, o passeio não é propriamente de domingo. Mas, que hei de fazer se em férias todos os dias se  parecem com ele e eu, hoje, fiquei com as voltas trocadas?









quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Uma tarde, em setembro

A maré baixa e eu caminhando pela praia, a carícia das ondas a morrerem-me nos pés, as gaivotas voando baixo, as gaivotas voando alto, as gaivotas dormitando na areia e fechando os olhos ao vento, as lagoas entre rochas, os olheiros de água doce borbulhando, a garça procurando alimento indiferente aos veraneantes que se equilibram sobre as pedras enquanto procuram a vida entre marés, o homem que me mostra a cavidade onde se esconde um caranguejo para eu o fotografar, os pepinos do mar sob a transparência das águas, os barcos que regressam dos passeios pela costa, os gritos alegres dos passageiros de uma banana pronta a deslizar sobre as ondas, as cigarras escondidas na vegetação da falésia em competição sonora com a rebentação das ondas, o casal que tira uma selfie, a mulher de meia idade que corre pela praia abanando as carnes, a criança que mostra uma alga ao pai dizendo que parece aquilo das uvas, o pai que joga à bola com os filhos e que canta Porto, Porto, Porto, uma leve neblina no horizonte, o mar todo ele prata.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Queres estas ou estas?

Queres estas ou estas, pergunta a mulher com cara de poucos amigos, dirigindo-se ao homem que conduz o carrinho de supermercado. Em cada mão tem um saco de carcaças e só por estar a segurar os sacos é que não as tem nas ancas. É uma mulher jovem e grande. Grande de quem ocupa bastante espaço, grande de quem ostenta vastas superfícies de prazer. Já o homem que segue agarrado ao carrinho das compras e a quem se dirige a mulher é de pequena estatura. Se colocado ao lado dela não lhe deve ultrapassar o nível do ombro e, na largura, ficará pela metade. A voz é pequena também e parece sumir-se braços abaixo até às mãos, para com elas se agarrar ao carrinho de supermercado como se este fosse uma pequena tábua no meio das ondas ameaçadoras da tempestade.  Tanto faz, tanto faz, consigo ouvi-lo dizer. Queres alguma coisa daqui, retorque ela indicando o corredor seguinte. E logo remata: também não quero saber das tuas compras. Queixa-se de seguida a outro casal que os acompanha, relatando os motivos da sua ira, expondo as faltas cometidas pelo companheiro, que a deixou plantada na secção da padaria e prosseguiu caminho sem esperar pela escolha do pão. Vão os quatro por diante, e o homem pequenino, de fala sumida a justificar-se:  mas ela… qualquer coisa…  Fico a vê-los afastarem-se, tão desproporcionados como as tatuagens que levam nas pernas. Ela, um losango rendilhado que lhe ocupa toda a largura do gémeo, ele, umas finas setas a condizer com a sua diminuta presença. 

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Odonata


Aqueço a minha curta vida de adulto ao sol de setembro e, sem me mover, olho atentamente à minha volta. Procuro alimento e par com quem tratarei de assegurar a continuação da espécie. Vejo quando te debruças sobre mim. Voo para outro ramo de erva seca ou talvez para o arame daquela cerca. Voo, mas volto a ti. Vá, podes tirar o retrato.

Alongamentos

Gosto da cor da toalha. O roxo de um turco novinho em folha, ainda sem vestígios de sol nem de sal, chama a minha atenção. Formando um pequeno monte, junto ao canto superior direito da toalha, repousam os calções do mesmo tom, um polo rosa velho e uns chinelos pretos. Pretos são também os calções de banho de licra do homem que, junto à toalha, está de pernas afastadas, quase numa espargata, mãos nos tornozelos, costas expostas para o meu lado, cara a roçar a areia. Está ali em equilíbrio, que por momentos me parece periclitante e me faz temer pela possibilidade de lhe ver o rosto esmagar-se, bem sob os meus olhos. Mas logo muda a posição. Deita-se agora de costas, pernas levantadas, abertas de par em par. De novo as mãos agarradas aos pés e as costas a balouçar, cabeça para cima, cabeça para baixo. Depois desenha um quatro com as pernas e enrola os braços pelo meio dos membros inferiores. Ao sol, já transpira o contorcionista. Até eu, pese embora estar à sombra. Depois de muito se contorcer e de se alongar o suficiente, caminha finalmente para o mar.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

domingo, 3 de setembro de 2017

Passeio de domingo (373)



O passeio é de ontem mas, se não se importam,  vamos fazer de conta que é de hoje. A praia é a do Barranco das Belharucas, Albufeira.









sábado, 2 de setembro de 2017

Parlez-moi d'amour




Parlez-moi d'amour
Redites-moi des choses tendres
Votre beau discours
Mon cœur n'est pas las de l'entendre
Pourvu que toujours
Vous répétiez ces mots suprèmes:
"Je Vous aime"

Vous savez bien que dans le fond je n'en croie rien
Mais cependant je veux encore écoutez ce mot que j'adore
Votre voix au son carressant qui le murmure en fremissant
Me berce de sa belle histoire
Et malgré moi je voix y croire

Parlez-moi d'amour
Redites-moi des choses tendres
Votre beau discours
Mon cœur n'est pas las de l'entendre
Pourvu que toujours
Vous répétiez ces mots suprèmes:
"Je Vous aime"

Il est si doux mon cher trésor
D'être un peu fou
La vie est parfois trop amère
Si l'on ne croit pas aux chimères
Le chagrin est vite appaisé
Et se console d'un baiser
Du cœur on guéri la blessure
Par un serment qui le rassurre

Parlez-moi d'amour
Redites-moi des choses tendres
Votre beau discours
Mon cœur n'est pas las de l'entendre
Pourvu que toujours
Vous répétiez ces mots suprèmes:
"Je Vous aime"


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Mil andorinhas

Mil andorinhas juntaram-se esta manhã na antena de televisão da casa da vizinha e no cabo de eletricidade que ladeia o céu da minha rua.

Mil. Foi uma conta fácil de fazer, assim num relance, nos escassos segundos em que olhei para a direita e depois para a esquerda antes de sair do portão e me fazer à estrada. Eram mil andorinhas numa agitação de asas ao primeiro sol da manhã. Não me pude deter na observação do seu ajuntamento porque a vida me chamava para o lado oposto ao evento. Mas levei comigo, pela manhã fora, a carga leve desta especial melancolia de fim de agosto e uma alegria triste, própria das festas de despedida. Sabia bem que no meu regresso a casa já não veria as andorinhas.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um post para esquecer

Uma viagem inteirinha até Faro e outra viagem inteirinha de Faro até casa com a dúvida instalada. Uma dúvida que oscila entre a quase certeza e a inquietante incerteza. É incrível a diversidade de coisas que me passam pela cabeça quando levo as mãos no volante. E como coisa, puxa coisa, começo por pensar que tenho de comprar uma prenda para a filha da minha prima que brevemente celebra aniversário. E o caso é que essa minha prima me ofereceu, não há muito tempo, uma blusa. E acontece que há dois dias atrás eu coloquei essa blusa na máquina para lavar. E depois saí de casa, a passeio. E agora, com as mãos no volante, a caminho e Faro, já não sei se pus mesmo a máquina a lavar. Só sei que nunca mais me lembrei da roupa, nem da máquina. E só imagino a minha blusa, no meio de outras blusas, toalhas de rosto, talvez uma ou outra calça, encerrada, molhada, amarfanhada no tambor da máquina, certamente já com odor pouco recomendável. E sigo viagem nesta inquietação. Faço o que tenho a fazer no destino tomado. E regresso, mãos no volante, cabeça às voltas, ansiosa por chegar a casa para programar nova lavagem, não dispensando aquele amaciador que cheira tão bem a angélicas e flor de baunilha. E vou-me recriminando. Que despistada. Que descuidada. Que desmemoriada.  Mas talvez se tenha dado o caso de, há dois dias, eu não ter ligado a máquina de lavar. Mas, não. Acho que liguei mesmo. A minha memória está mais nublada do que aquele canto de céu.  Ai, só eu. Já em casa, confiro a máquina de lavar e lá está a minha blusa, em seco, com pouca companhia ainda, no tambor da máquina, que se mantém de óculo aberto enquanto espera por mais abastecimento.  Não sei se fico aliviada pela roupa, se fico preocupada pela minha pobre memória. E não sei o que é pior, se este paupérrimo estado em que se encontra, se a minha crescente falta de confiança nela.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Consciência

Vejo-as, ainda de longe, no passeio do topo da rua pela qual caminho. Observam, como que a medo, o corpo que repousa num banco público. Trocam impressões, inquietas, seguram o queixo com uma mão, apoiam a outra na anca, dão um passo em frente, inclinam o tronco para aproximar os olhos do objeto da sua curiosidade, recuam um passo e voltam ao seu posto inicial de observação. 

Um homem acerca-se das duas mulheres. Imagino-lhes os questionamentos sobre quem se mantém ali estendido, imóvel, corpo morto sobre o banco, debaixo de uma árvore de escassa folhagem. Num repente o homem chega-se ao corpo inanimado e, como aferindo-lhe a pulsação, pousa os dedos sobre o pescoço da criatura que, apenas adormecida, se senta de sobressalto.

Gesticulam e explicam-se os três observadores dando conta das suas inquietações à mulher já acordada e a refazer-se do susto. A conversa está agora ao alcance dos meus ouvidos. Aconselham-na a colocar a cabeça à sombra, que se deite, sim, mas que se proteja do sol.

Enquanto a mulher ensonada se mantém muito direita, sentada imóvel no banco de jardim, as duas primeiras vão à sua vida, dizendo uma para a outra, que não se podia ir embora sem fazer nada. Não podia. É que não iria ficar de bem com a sua consciência.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A gravata

A quatro mesas de intervalo, a mulher pousa o tabuleiro e senta-se virada de frente para mim. Conheço-a. Conheço-a. Conheço-a. Mas de onde? Mas de onde? Mas de onde? Na minha cabeça, a dúvida anda em círculos velozes a ponto de quase me entontecer. Prossigo a minha refeição em esforço mental até que o colega da mulher chega por sua vez à mesa e me salva. Não é propriamente ele que me salva. É a gravata verde que usa e que, lá do pescoço dele, me grita que a mulher é a que atende ao balcão da seguradora.


domingo, 27 de agosto de 2017

Passeio de domingo (372)


Perdoem-me a monotonia deste passeio, mas hoje deu-me para me dedicar não a flores com espinhos, mas aos espinhos que dão flor.









T(r)emor

O solo estremecia sob a minha toalha de praia. A cada bum, bum, bum correspondia um passo de corrida do rapaz que vinha da água e se dirigia para o grupo familiar, mesmo na minha frente. Sentados em fila horizontal, pai, mãe, irmão já despachavam as suas bolas de Berlim. O rapaz pegou também numa e comeu-a de pé, costas viradas para o mar. Estava na minha hora e apressei-me a sair do areal antes que o rapaz voltasse a correr. Foi ontem. Entretanto, consultados os sites de notícias, verifico que nada de anormal foi registado na zona. A praia aguentou firme. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Passeio de domingo (371)


10h00 - 12h00, em manhã de "Oh (para não dizer Ah) o Algarve em agosto", na praia da Falésia. Porque há caminhos quase secretos.