terça-feira, 7 de março de 2017

Medo

Não sei já que idade teria. Doze ou treze anos, talvez. Encontrava-me em casa e devia estar doente. Não recordo que mal me prendia ali mas estava de camisa de noite, estendida na cama, no quarto de paredes forradas a papel com enormes flores cor-de-rosa. A minha mãe tinha-se ausentado e eu, ali sozinha, do nada, comecei a sentir o coração a bater num ritmo cada vez mais acelerado. Batia tão forte que parecia querer saltar-me pela boca. Tão forte que achei que corria para a morte. Eu ia morrer ali, tinha absoluta certeza. Completamente tomada pelo pânico, saí de casa assim mesmo, descalça, e desci pelo elevador em busca de socorro junto da porteira.  Nesse momento estava já de volta a minha mãe e não demorou muito para que o coração se acalmasse. Nesse dia não morri. O coração já voltou outras vezes a correr disparado, sobre um fundo difuso de medo inexplicável. Mas nunca com tanta força como naquele dia, nunca com tamanho desespero. Não sei se são os medos que enfraquecem ou se é apenas o coração que, como inoculado, reage cada vez com menos força para que nem nos dêmos conta do apagão final.

8 comentários:

bea disse...

Acho que senti uma coisa parecida quando certa tarde um galgo correu atrás de mim.

Majo Dutra disse...

Conheço-o bem...
Um copo de água fria e ar fresco ajudam muito.
É verdade, os batimentos cardíacos são muito acelerados na idade infantil
e vão progressivamente diminuindo, até à hora final, quando ela é boa...
Dias agradáveis e plácidos, Luisa.
~~~ Beijo
~~~~~~

Flor de Jasmim disse...

Senti um medo louco tinha eu 12 anos na noite de 28 de Fevereiro de 1969, noite de um enorme sismo em Portugal. Muitos outros me tem acompanhado durante a minha vida, presentemente está um que não me abandona.

Beijinho com muito carinho e desejo de rápida recuperação.

Elvira Carvalho disse...

Também já lhe conheci o gosto. Praticamente sempre duas hora antes das 8 cirurgias que já fiz. Depois como se fosse demais para mim, caio numa estranha calma, como se o espírito se ausentasse do corpo.
Um abraço e Feliz dia Luisa.

Laura Ferreira disse...

também tive assim um medo em menina.
tenho às vezes, hoje em dia. mostro-o menos aos outros mas continuo a mostrá-lo a mim.
acho que faz parte de ser-se humano.

Os olhares da Gracinha! disse...

Ai como sei o que é isso!!!
Mulher incapaz de aguentar "a angústia" de quem se ama!
Sinto arrepios ainda hoje!!!bj

Ana Freire disse...

Ataques de pânico...
Às vezes tenho-os de noite... a dormir... quando me vêem à cabeça acontecimentos passados...
É das sensações mais aterradoras, que se possa sentir... talvez um dia, não consiga acordar de um deles... às vezes penso nisso...
Beijinhos
Ana

Ricardo Santos disse...

Já tive alguns infelizmente. Gosto imenso do teu texto !