quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Queres estas ou estas?

Queres estas ou estas, pergunta a mulher com cara de poucos amigos, dirigindo-se ao homem que conduz o carrinho de supermercado. Em cada mão tem um saco de carcaças e só por estar a segurar os sacos é que não as tem nas ancas. É uma mulher jovem e grande. Grande de quem ocupa bastante espaço, grande de quem ostenta vastas superfícies de prazer. Já o homem que segue agarrado ao carrinho das compras e a quem se dirige a mulher é de pequena estatura. Se colocado ao lado dela não lhe deve ultrapassar o nível do ombro e, na largura, ficará pela metade. A voz é pequena também e parece sumir-se braços abaixo até às mãos, para com elas se agarrar ao carrinho de supermercado como se este fosse uma pequena tábua no meio das ondas ameaçadoras da tempestade.  Tanto faz, tanto faz, consigo ouvi-lo dizer. Queres alguma coisa daqui, retorque ela indicando o corredor seguinte. E logo remata: também não quero saber das tuas compras. Queixa-se de seguida a outro casal que os acompanha, relatando os motivos da sua ira, expondo as faltas cometidas pelo companheiro, que a deixou plantada na secção da padaria e prosseguiu caminho sem esperar pela escolha do pão. Vão os quatro por diante, e o homem pequenino, de fala sumida a justificar-se:  mas ela… qualquer coisa…  Fico a vê-los afastarem-se, tão desproporcionados como as tatuagens que levam nas pernas. Ela, um losango rendilhado que lhe ocupa toda a largura do gémeo, ele, umas finas setas a condizer com a sua diminuta presença. 

17 comentários:

Os olhares da Gracinha! disse...

No mínimo caricato!!! Bj

Maria Eu disse...

Tanto desencontro junto...
Que belo texto, Luísa!

Beijinhos :)

Flor de Jasmim disse...

Então quer dizer que viste a "sorte grande e a terminação" em casa ele nem fininho deve poder falar :((

Beijinho Luísa

Rui disse...

Mais um belo texto !

Um casal, completamente desproporcionado, um em relação ao outro. :) ...
Mas já repararam que o inverso até se vai vendo com alguma naturalidade e aceitação pública, embora com a mesma desproporção deste ?!

Habituados que estamos a que o homem assuma um papel de mais relevo ( em muitos aspectos), achamos esta situação muito estranha e realmente não deixa de o ser ! :)) Soa-nos a ridículo, mas porque será que o inverso já não nos choca tanto ?... :)))

Beijinhos, Luisa.

Graça Sampaio disse...

Que boçais somos... Pena...

papoila disse...

Gosto muito da tua escrita.
Bjs

Portugalredecouvertes disse...


Eles lá se entendem Luisa!

CCF disse...

E não é que às vezes esses casais funcionam?! Embora esse me pareça um pouco desencontrado e tristonho...
~CC~

Janita disse...

Subscrevo as palavras da Ângela e ainda acrescento que as aparências iludem! A estatura física não quer dizer nada. Há gente franzina, ar frágil, parecendo não partir um prato, mas que é danada de ruim, e há gente com ar de brutamontes e corações de pomba...:)

Beijos, Luísa!

Victor Barão disse...

Pois, os homens e as mulheres não se medem aos palmos! Mas neste caso, ao menos à primeira vista e ao respectivo excelente relato da Luisa, parece que o aspecto exterior condiz com a personalidade de ambos os elementos masculino e feminino em causa ou será isso precisamente mera aparência exterior!?
Em qualquer caso o texto da Luisa é mais uma vez um assombro e então a passagem: _ "...para com elas se agarrar ao carrinho de supermercado como se este fosse uma pequena tábua no meio das ondas ameaçadoras da tempestade.", da minha perspectiva e espero não exagerar ao dizer que é mesmo magistral.
Abraço

Pedro Coimbra disse...

Esse lavar de roupa suja em público e em voz alta é tão feio.

bea disse...

digo que a falta de proporção mental causa mais dano que a física. E que as aparências iludem. E ainda, que o espectáculo público é muito deselegante e desrespeita o outro em demasia.

Ricardo Santos disse...

Um texto do quotidiano, e que se assemelha muitas vezes a histórias que ouvimos !
Bonito Texto Luísa

luisa disse...

Gracinha,
Figuras que se fazem por aí.

Maria Eu,
E como estavam desencontrados…

Adélia,
Nunca saberemos como é lá em casa, só ficamos com aquele breve momento. O resto imaginamos se bem que a imaginação pode não ter nada a ver com a realidade.

Rui,
Estamos formatados pelo preconceito. Este casal era diferente do expectável, fisicamente falando, mas o que me chamou a atenção foi a discussão em público.

Graça,
Pois somos… :(

Papoila,
Que bom. Obrigada. :)

Ângela,
Sem dúvida.

CC,
Nunca se sabe. Aquilo que vemos pode bem iludir-nos.

Janita,
Lá está. Tendemos a julgar pela aparência. Mas, de facto, fiquei com pena do rapaz.

Victor,
Muito obrigada pelo seu apreço de sempre. Entretanto, acredito que o casal se tenha reconciliado, tanto mais que me pareceu ser pessoal em férias e férias a discutir não vale. :)

Pedro,
Pois é, muito feio. Mas acontece a muito boa gente.

Bea,
O pior foi mesmo o espalhafato, ali em pleno supermercado.

Ricardo,
Um quotidiano triste. Este género de situação deixa incomodado quem assiste.

© Piedade Araújo Sol disse...

cenas do quotidiano, muito bem relatadas.
beijinhos
;)

AFRODITE disse...

Os teus textos prendem...
O que daqui concluo é que a violência doméstica já não acontece apenas dentro de quatro paredes, lá onde ninguém vê e ninguém sabe.

(um pequeno à parte para dizer que não concordo nada com a conjugação do verbo ser na primeira pessoa do plural!)

Beijos pensativos

luisa disse...

Piedade,
São cenas a que, mesmo sem querer, acabamos assistindo.

Afrodite,
E não é assim tão raro assistir-se a discussões conjugais em locais públicos.